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quarta-feira, 27 de junho de 2018

Biscoitos de Mastro (Sonega/Alentejo)











  
Por vezes dizemos que as tradições fazem parte do passado. Aqui onde moro a tradição do mastro com os seus tradicionais biscoitos estão bem presentes anualmente pelo S. João. Na verdade já moro aqui há mais de vinte anos mas só este ano descobri esta tradição ancestral de origem pagã, que se celebrava em diversos países da Europa e simbolizava a força e a fertilidade masculina.

Aqui nos arredores de Sines a festa do mastro é realizada como pagamento de uma promessa religiosa. Noutros tempos quem mandava fazer e a custeava era alguém com posses económicas. Esta festa é caracterizada pelos biscoitos artesanais chamados de biscoitos do mastro e que são feitos nos dias anteriores à festa nas instalações do patrono e pendurados no mastro antes de ser erguido. Os biscoitos assumem sempre a forma de roscas mas ocasionalmente efetuam-se alguns biscoitos que representam a promessa, ou seja, figuras da pessoa/s ou da situação que suscitou a promessa. No final, os biscoitos são distribuídos gratuitamente pelos participantes da festa, no final e quando o mastro é derrubado.






Aqui perto de onde moro a responsabilidade é da Associação de Moradores do Salão Comunitário da Sonega. No entanto esta festa está espalhada por algumas localidades da região. (Sonega, localiza-se na estrada nacional 120, entre Sines e o Cercal do Alentejo)
Com a cumplicidade de algumas pessoas ligadas à Associação fui assistir à confeção dos biscoitos na Padaria da Dona Ercília nos arredores de Vila Nova de Milfontes onde aproveitei para tirar algumas fotos. No Domingo dei uma saltada até ao arraial e tirei mais umas fotos.
A confeção dos biscoitos varia muito de pessoa para pessoa, como de localidade para localidade. A base é farinha, banha, açúcar, canela e ovos (algumas pessoas não lhe adicionam ovos). Também há quem utilize massa leveda e outras não, assim como erva doce e casca de limão ralada.
Vou-lhes deixar uma receita do meu agrado para os biscoitos:

Biscoitos de mastro

1,150kg de farinha
400Kg de açúcar
1dl de água morna
40g de fermento de padeiro
150g de banha (pode substituir por manteiga)
2dl de água misturada com leite (pode ser só água)
2 ovos
Canela, e erva doce moída q.b.
Raspa de limão também a seu gosto

Comece por desfazer o fermento na água morna e misture com 150g de farinha. Amasse e forme uma bola que devera deixar descansar durante pelo menos meia hora.
Entretanto num alguidar coloque a restante farinha, no centro da farinha coloque a farinha com o fermento e vá adicionando e envolvendo com a água misturada com o leite. Junte a canela, erva doce, raspa de limão, a banha derretida os ovos, o açúcar e vá amassando muito bem. A massa fica um pouco mais rija do que a do pão. Forme uma bola, tape com um pano e deixe a levedar. Quando estiver leveda, trabalhe um pouco a massa e retire pequenos bocados que se tendem e fazem enfeitam os biscoitos da maneira que mais gostar.
Deixe que os biscoitos descansem durante uma meia hora, antes de irem ao forno.


Nota: Se gostar, doure os biscoitos com gema de ovo antes de os levar ao forno.  













quinta-feira, 22 de março de 2018

Folar da Páscoa





Lenda do folar da Páscoa

Numa aldeia portuguesa, vivia uma jovem chamada Mariana que desejava casar nova, mas não tinha pretendentes.
Então resolveu rezar a santa Catarina.
Tanto rezou a Santa Catarina que um dia lhe surgiram dois pretendentes: um fidalgo rico e um lavrador pobre, ambos jovens e belos.
Como Mariana não sabia qual escolher, recorreu novamente a Santa Catarina para fazer a escolha certa. Enquanto estava a rezar, bateu o lavrador pobre que se chamava Amaro a pedir-lhe uma resposta e marcando como data limite o Domingo de Ramos.
Passados alguns minutos, apareceu o fidalgo a pedir-lhe também uma decisão e marcando-lhe como limite a mesma data.
Mariana não sabia o que fazer.

No Domingo de Ramos, uma vizinha apareceu muito aflita avisar Mariana que o fidalgo e o lavrador se tinham cruzado num caminho e naquele momento, travavam uma luta de morte. Mariana correu até onde os dois se defrontavam, parou a luta e escolheu Amaro, o lavrador pobre.
No entanto Mariana continuava atormentada, porque lhe tinham dito que o fidalgo apareceria no dia do casamento para matar Amaro. Na véspera do Domingo de Páscoa, Mariana rezou a Santa Catarina e a imagem da Santa, ao que parece, sorriu-lhe.
No domingo de Páscoa, Mariana foi colocar flores no altar da Santa e, quando chegou a casa, tinha em cima da mesa, um grande bolo muito brilhante com ovos inteiros rodeado de flores. Eram as mesmas flores que Mariana tinha colocado no altar.
Então, correu para casa de Amaro, mas encontraram-se no caminho. Amaro contou-lhe que também tinha recebido um bolo igual. Pensaram ter sido coisa do fidalgo. Correram para casa do fidalgo para lhe agradecerem, mas o fidalgo também tinha recebido um bolo igual.
Mariana ficou convencida de que tudo tinha sido milagre de Santa Catarina para fazer com que todos se reconciliassem com amizade.
Este bolo que inicialmente se chamava folore, com o tempo, tornou-se conhecido como folar e transformou-se numa tradição que celebra a amizade e a reconciliação.
Durante as festas Pascais cristãs os afilhados costumam levar, no Domingo de Ramos, um ramo à madrinha de batismo e esta, no Domingo de Páscoa, oferece-lhe em retribuição um folar.
Esta lenda é tão antiga que se desconhece a sua data de origem, no entanto esta tradição da oferta do Folar da Páscoa chegou até aos nossos dias.
Se quiser confecionar o Folar da Páscoa para oferecer ao seu afilhado ou colocar na sua mesa no Domingo de Páscoa aqui deixo esta receita muito simples mas deliciosa.



Folar da Páscoa

500g de farinha
125ml de água morna
25g de margarina ou manteiga
3 ovos
125g de açúcar
1 colher de (chá) de erva doce moída
2 ovos cozidos
Raspa de laranja ou de limão a gosto
Fermento de padeiro q.b. (utilizei em barra 25g)
Sal q.b.


Numa vasilha coloque em monte a farinha e abra um buraco no meio. Adicione no buraco da farinha, os ingredientes secos, os ovos e a água e amasse até estar tudo bem ligado.
Polvilhe a mesa onde vai trabalhar e coloque a massa sobre o polvilhado. Amasse energicamente durante uns 10 minutos.
Coloque a massa numa vasilha tipo alguidar e polvilhe com farinha. Abafe com um pano e deixe levedar pelo menos uma hora em lugar quente e seco.
Unte um tabuleiro de ir ao forno ou forre com papel antiaderente. Verta a massa no tabuleiro, dê a forma que desejar ao bolo, tape novamente com o pano e deixe levedar mais uns 30 minutos.
Entretanto aqueça o forno a 200ºC.
Antes de levar o folar ao forno, coloque os ovos e pincele com uma gema de ovo.
Leve ao forno até estar cozido a seu gosto. (no meu forno levou 30 minutos, mas os fornos não são todos iguais)

Notas: Pode enfeitar com tiras de massa e até poderá fazer o folar sem ovos cozidos.

Se tiver uma boa batedeira, poderá simplesmente juntar todos os ingredientes e bater com as varetas mais grossas e depois trabalhar a massa na mesa.
Eu utilizei a máquina de fazer pão que bate e leveda o tempo necessário, só depois trabalhei a massa para colocar no tabuleiro.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Tiramisù


Foto de Mário Cerdeira



A origen do Tiramisù é incerta , pois cada região reinvindica a invenção desta deliciosa sobremesa. Por causa da popularidade do Tiramisù existe uma espécie de disputa entre as regiões da Toscana, Piemonte e Veneto.
A versão oficial coloca o nascimento do tiramisù , no século XVII  em Florença, Toscana quando alguns confeiteiros de Siena decidiram fazer um doce especial num banquete, para comemorar a chegada do grão-duque da Toscana, Cosimo III da família Medici.
O doce refletia a personalidade do grão-duque, que era uma pessoa importante, simples e apaixonado por doces. Teria sido assim que nasceu o Tiramisù, confecionado com ingredientes simples mas saborosos. Naquela época foi batizado de “zuppa del duca” em homenagem ao duque que levou a receita para Florença, sendo esta receita rapidamente conhecida em toda a Itália.
 Dizem que o tiramisù se transformou na sobremesa preferida dos nobres, que os ingredientes eram afrodisíacos e excitantes, fazendo surgir o nome Tiramisù, que traduzido quer mais ou menos dizer “me puxa para fora” , “saio de mim” ou "levanta-me".
Existem outras versões não oficiais  que dizem que o Tiramisù foi inventado por um confeiteiro de Turim, que se encontrava na região de Piemonte, para homenagear Camillo Benso , Conde de Cavour um dos responsáveis pela unificação da Itália.
A região de Vêneto também tem a sua própria versão que  a localizam no século XX, depois de acabar a Segunda Grande Guerra, em Treviso, no restaurante "Da Alfredo", a primeira casa do grupo "Torlá". O nome viria da sobremesa energética "che ti tira su" (que te faz levantar) usada para revigorar boêmios das noitadas passadas nos bordéis do Vêneto. No entanto, o restaurante nunca reivindicou sua criação.
Surge uma outra possibilidade em Treviso, é que tenha sido criado no restaurante Le Beccherie, no início dos anos 1950. O restaurante que fechou em 2014.

Deixo aqui a receita oficial do Tiramisú

2 ovos
50g de açúcar
1 pitada de sal
200g de queijo "Mascapone"
1/4 de litro de café (substituí por algum sumo de laranja)
16 palitos "la reine"
Cacau em pó q.b.

Comece por separar as gemas das claras.
Bata as gemas com o açúcar até ficarem esbranquiçadas e espumosas.
Entretanto bata as claras em castelo temperadas com uma pitada de sal até ficarem bem firmes.
Misture as gemas batidas com o queijo muito bem e por ultimo envolva as claras batidas em castelo de baixo para cima.

Verta o café num prato, passe pelo café 8 palitos de maneira a ficarem moles por fora mas rijos por dentro.
Forre o fundo de um tabuleiro ou forma com os palitos embebidos no café. Verta sobre os palitos metade do creme e alise com uma espátula ou faca.
Sobreponha os restantes 8 palitos demolhados no café e verta sobre os palitos o restante creme de queijo. Alise novamente, polvilhe com cacau e leve ao frio por algumas horas.

Nota.
Na minha versão apresentada na foto, substitui o café por sumo de laranja (poderia substituir por uma bebida a meu gosto como rum) e distribui por taças. Em algumas taças adicionei bocados de morangos. Poderá fazer a receita original ou dar-lhe um toque pessoal.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Feijoa / goiaba da serra etc.



Feijoa  faz parte da família Myrtaceae que inclui uma única espécie, a Acca sellowiana, conhecida normalmente por goiaba da serra, goiaba do mato, goiaba do campo ou goiaba ananás. É originária das terras altas do sul do Brasil, leste do Paraguai, Uruguai e norte da Argentina.

Fruto semelhantes à goiaba, mas com aroma diferente e agradável. Dizem que o fruto é mais agradável para cheirar do que para comer. Tem um  sabor misto entre a goiaba e o ananás. A polpa é sumarenta e divide-se numa parte gelatinosa,( onde estão as sementes), e uma parte mais firme e levemente granulada junto à casca. O fruto cai da árvore quando maduro, mas pode ser colhido antes, de modo a não ficar danificado.
A polpa granulada junto à casca pode ser utilizada como esfoliante. As pétalas das flores, no final do seu ciclo, também são comestíveis possuindo um sabor suavemente adocicado e agradavelmente perfumado. (se conseguir algumas flores poderei fazer uma geleia)

O botânico alemão Otto Karl Berg deu-lhe o nome de feijoa em honra do naturalista luso-brasileiro João da Silva Feijó (1760-1824). Porque João da Silva Feijó quando viveu no Ceará, foi encarregado pela coroa portuguesa de mandar exemplares da flora nordestina para o Real Jardim Botânico da Prússia. Entre os exemplares que mandou e estudou lá estava esta planta, o que mais tarde, ocasionaria a homenagem.

A feijoa é uma planta de ambientes quentes-temperados a subtropicais, desenvolvendo-se também nos trópicos, requerendo, contudo, alguns dias de baixas temperaturas (chilling requirement) para poder frutificar. No hemisfério norte, tem sido cultivada até a Escócia, mas nem sempre frutifica porque temperaturas abaixo dos -9 °C destroem os botões florais. É uma planta bastante popular na Nova Zelândia, onde é cultivada nos jardins. Claro que também se espalhou em África.

A que apresento na foto é natural aqui da zona (Alentejo Litoral) onde habito.
Este fruto pode ser consumido fresco ou pode-se utilizar em marmelada e geleias. O seu sumo pode ser consumido como o de outros frutos, proporcionando agradáveis e refrescantes bebidas.


Geleia de Feijoa


Feijoa cortada finamente q.b.
Açúcar: mesmo peso da feijoa em açúcar (roubei um pouco)
Água: metade da quantidade (em volume) do açúcar
Casca de limão e um pouco de sumo q.b.
Um pau de canela


Leve ao lume a água com o açucar, o pau de canela e a casca de limão, deixe ferver um pouco e adicione a jeijoa cortada finemente. Adicione um pouco de sumo de limão e deixe ferver até apurar a seu gosto. (eu retirei do lume quando começou a fazer uma leve estrada)

Nota: Pode triturar a geleia se preferir ou té mesmo não utilizar a casca da feijoa.


sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Hidromel (a primeira bebida alcoólica produzida pelo homem)



Este mês fui até Grândola à feira do chocolate. Chamaram-lhe feira de chocolate mas tinha muito pouco de chocolate e muito de doces tradicionais e conventuais.
Entre os standes encontrei um que me chamou bastante a atenção. Entre vários produtos relacionados com mel, estava hidromel. A primeira bebida alcoólica produzida pelo homem.
Dizem que:
Os povos celtas já apreciavam o hidromel.
Os romanos atribuíam-lhe propriedades afrodisíacas.
Os vikings responsabilizavam-no pelas bravuras dos seus guerreiros.
Os gregos consideravam-no a bebida dos deuses.

Poderei juntar a estas citações que em Angola até cerca de 1910 era uma bebida muito comum com o nome de zuua. Foi proibido a sua fabricação porque deixavam que a sua fermentação fosse elevada e assim o seu teor alcoólico também era grande, havendo frequentemente casos de grande embriagues.
Isto por volta de 1910 como diz o etnógrafo Óscar Ribas no seu livro Missosso. 
Eu estive lá bem mais tarde e era normal encontrar alambiques escondidos que fabricavam esta bebida… também era normal ver os cavalheiros cambaleando pelas ruas. (se calhar era do vento)


Hidromel é o nome que se dá à bebida alcoólica em que a maior percentagem de açúcar fermentado têm origem no mel, (a proporção de produção é uma parte de mel e duas de água) independentemente dos adicionantes utilizados na preparação do mosto. Como é uma bebida alcoólica fermentada, os seus teores alcoólicos variam consoante as leveduras adotadas na produção. Os produtores artesanais conseguem teores alcoólicos por volta de 20%.
Esta bebida é muito apreciada desde a antiguidade, passando pela Grécia Antiga, Roma Antiga, Leste europeu, eslavos, anglo-saxões, saxões, vikings, celtas, francos, etc.   
Entre os vikings era tão consumida e reconhecida que a própria Mitologia Nórdica explicava o seu surgimento e sua grandiosidade.
Também os maias consumiam uma bebida idêntica.
Na Irlanda era tradição e dever, os casais recém-casados consumirem esta bebida durante o primeiro ciclo lunar (ou mês) após o casamento. Daí surgiu a tradicional lua de mel.

A receita base do hidromel consiste em água, mel e levedura, A partir desta receita básica é possível adicionar um sem numero de ingredientes, como frutas, especiarias, ervas, flores, sementes, etc.etc.
Não se sabe ao certo onde esta bebida alcoólica surgiu, porque há registos de que várias civilizações descobriram que a fermentação de mel originava uma bebida alcoólica. No entanto a história diz-nos que já era consumido há pelo menos oito mil anos. A sua produção é anterior ao fabrico do vinho e à da cerveja.
Segundo Plínio, foi Aristeu quem criou a primeira formula do hidromel. (li isto algures)
As teorias sobre o seu surgimento são várias, mas a mais aceitável remonta à pré-história que diz:
Que quando o homem ainda era nômada, encontrava facilmente colmeias, então ele retirava o mel das colmeias e misturava na água que normalmente transportava. Aos poucos com o consumir desta água doce pelos homens, a bebida começava a fermentar com a ajuda de leveduras selvagens, deixadas pela boca e deixadas pelo ar que transformavam o açúcar do mel em álcool. (um dos exemplos desta realidade é ainda hoje utilizada por alguns povos da Amazónia que cospem para os recipientes quando estão a fabricar as suas tradicionais bebidas alcoólicas)
Quando o vinho e a cerveja apareceram, houve um declínio no consumo do hidromel. Estas bebidas tornaram-se mais baratas e ao mesmo tempo o mel tornou-se mais caro e um dos principais motivos foi o aumento do mel, desencadeado pela urbanização das cidades. (o mel foi direcionado para outras utilizações)

Em Portugal é pouco popular, mas está a ganhar o seu espaço entre as bebidas generosas.





Imagens autorizadas por Apiagro 

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

A alheira, a inquisição e a História




Diz a lenda que as alheiras foram inventadas pelos judeus porque a sua religião não permitia comer a carne de porco e com este enchido enganavam a Inquisição.
Do mesmo modo que os cristãos utilizavam a carne de porco nos enchidos, os judeus utilizavam carne de caça.
Isto é o que diz a lenda, porque se estudarmos a nossa história e a inquisição somos levados a tirar outras conclusões.
Tudo leva a querer que quando os judeus se viram obrigados a fugir para Portugal em 1492 expulsos de Espanha, eles os judeus já traziam na bagagem este enchido. Era o mais certo. Reparem que o fumeiro era o modo de conservação mais utilizado na época e de certeza os judeus já usavam o fumeiro.
Em 1492 quando vieram para Portugal D. João II recebeu os judeus e aproveitou os matemáticos, médicos e financeiros etc., todos aqueles que lhe trariam lucros e conhecimentos. Não nos podemos esquecer que D. João II andava em disputa com os reis de Espanha nas descobertas marítimas. A verdade é que enquanto os mais ricos vinham para as cidades, os mais pobres ficaram junto da fronteira. No entender de José Leite de Vasconcelos (filólogo, linguista, arqueólogo e etnógrafo português, 1858-1941), em Bragança ficaram os que vinham bem calçados, os que traziam pior calçado ficaram em Mogadouro e os descalços em Argozelo e Carção.
A história demonstra que D. João II até falecer em 1495, não perseguiu os judeus.
Já com D. Manuel não foi bem assim:  D. Manuel iniciou o seu reinado com tolerância religiosa, (apesar de muito religioso) começou por libertar os judeus que haviam fugido das perseguições em Espanha e estavam em situação de escravatura. Claro que isto era tal como fez o seu antecessor D. João II justificado pela necessidade do capital financeiro e intelectual das comunidades judaicas, valores muito importantes para a sua política expansionista. (os descobrimentos eram muito dispendiosos)
Com o passar do tempo esta política alterou-se. D. Manuel I ambicionava unir os reinos Ibéricos e para isso começou a fazer acordos com os reis católicos utilizando o seu casamento com a herdeira de Espanha, Isabel de Aragão (que era viúva do príncipe D. Afonso) e mais tarde no seu casamento com Maria de Aragão. Nestes acordos teve de ceder em relação á expulsão dos infiéis (mouros e judeus).
Em relação á comunidade judaica, D. Manuel tentou manipular esta situação, começando por obrigar a sua conversão ao cristianismo. Fechou os portos do reino exceto Lisboa para que estes não saíssem em massa do país assim como, autorizou um período mais alargado de conversão ao cristianismo, não permitindo que os convertidos fossem sujeitos de qualquer inquérito durante vinte anos. Isto na prática permitia que os judeus continuassem os rituais hebraicos.
Uma lei que foi bastante polémica foi a que obrigou à educação por famílias cristãs de filhos de judeus, que os recuperariam caso se convertessem. No entanto, estas tentativas foram um fracasso.
Levaram a que os fundamentalistas religiosos, e uma parte de populares se tornassem descontentes com o surgir de uma comunidade de cristãos-novos e fizesse com que ficassem sempre debaixo de suspeita. Se questionarmos o objetivo de D. Manuel no dissolver das comunidades judaicas e a sua integração religiosa terá sido atingido? Sabe-se que duzentos anos depois uma grande parte dos inquisidores tinham ascendência judia, e ao mesmo tempo a tradição fundamentalista cristã antissemita (sem ser exclusiva do reinado de D. Manuel), sai reforçada.
Também se sabe que esta perseguição foi muito mais forte na cidade de Lisboa. A maioria das pessoas nunca ouviu falar no Massacre de Lisboa de 1506 mas que D. Manuel I castigou severamente os incitadores deste massacre.
D. Manuel I só solicitou em 1515 ao papa a introdução em Portugal de um tribunal da Inquisição, o que só viria a ser concedido no reinado seguinte, perante novo pedido de D. João III.
Voltando ao enchido:
Depois de tanta História, está provado de que os judeus já produziam o enchido no século XV, antes da conversão forçada e da inquisição. Seria conhecido por tabafeia, (ou tabafeira) como está registado na Grande Enciclopédia da Cozinha, de Maria de Lourdes Modesto em 1965.
Pode-se verificar este nome, num texto do Cancioneiro Geral, de Garcia de Resende (Vol. III), em que Nuno Pereira, para troçar de “Doutor Mestre Rodrigo” (um judeu), lhe diz: “Eu comi atabafea, (j)uro em Deu, e grãaos torrados e pees de vitela à cea com bandouva apicaçados.”

Conclusão:
A história leva-me a crer que a alheira tem origem no enchido judeu, mas não porque eles o fizessem para enganar os cristãos.
Acredito sim que a pobreza dos povos transmontanos os fizesse popularizar o enchido dos judeus ao lhe acrescentaram a carne de porco.


Não esqueçam… a alheira de caça não foi criada neste século, nem no século passado, já se comia no século XV.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Atum de barrica à moda saloia






Fui levada no tempo ao meu almoço…
Na minha meninice e juventude, no Outono era normal comermos em casa atum de barrica cozido com couves batatas, cebola etc. etc. Este petisco começava a ser consumido na casa das minhas memórias familiares no dia de Todos os Santos, molhado com uma boa água pé e perlongava-se até ao S. Martinho acompanhado pelo vinho novo.
Continuei com esta tradição sempre que possível e até habituei o meu cara metade a comer e apreciar este atum que se ama ou detesta.
O atum de barrica (porque antigamente era acondicionado e vendido em barricas de madeira, hoje em latas de plástico) é um atum em salmoura que é um modo de conserva anterior à conservação em latas. Este modo facilitava a sua distribuição em distâncias no país e em tempo pois a pesca do atum era e é sazonal.
Anteriormente todo o atum era assim conservado, mas com o avançar das industrias conserveiras em lata, o atum de barrica passou a ser o pobre da família conserveira. Passou-se a só aproveitar as partes escuras do tunídeo ou aquelas que consideravam de inferior qualidade para conservar em lata.
Entrei bem cedo em contato com este atum, pois como o meu pai era do Algarve e este atum existia normalmente em todo o Algarve e também coexisti com este atum nos arredores de Lisboa, zona para onde fui viver com dois anos.
Ainda hoje quando o quero apreciar, o encomendo fora de portas como diziam antigamente os lisboetas ao referirem-se aos arredores de Lisboa.
Este que aqui vos amostro veio de Mafra. Aproveitei saber que a minha irmã aqui vinha (Alentejo) e lhe pedir para me trazer um bocado e poder assim matar saudades daquilo que considero um petisco.

Atum de barrica à moda saloia




Não vou explicar como se confeciona este prato, a imagem diz tudo. No entanto aconselho que o demolhem como se faz ao bacalhau.

Não acompanhei com cebola cozida. Hoje não estava para aí virada. No entanto é normal acompanhar também com uma cebola cozida.
Eu cozi o atum separadamente. Uma coisa que considero importante, reguem com um bom azeite.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Arroz de aipo e cenoura / Creme de aipo e cenoura







Hoje vamos falar de Aipo (também conhecido por salsão). Na verdade o seu nome é Apium graveolens. (Eu não sou capaz de decorar este nome)
No século dezassete o aipo começou a ser cultivado em Itália a partir de um tipo silvestre. Este cultivo deu origem a várias variedades menos amargas. No século dezanove, o aipo já era consumido tanto na Inglaterra como na América.
Este vegetal de folhas verdes pertence à família Apiaceae.(exemplo agrião, salsa, cenoura etc.) O talo é o mais consumido. Este vegetal além de ser um alimento de baixo teor calórico é rico em nutrientes e água. O caule pode ser cozinhado ou consumido cru. As folhas podem ser usadas em sopas, molhos e caldos. Também a raiz é utilizada principalmente na Páscoa Judaica na preparação do sêder
As sementes contêm óleos que são utilizados em medicamentos.
Os benefícios do aipo são vários porque ele é um alimento com baixa caloria. Fornece apenas 10 calorias por 100 gramas de seu consumo e contém 95% de água. Também composto de hidrato de carbono, fibra dietética. Tem poucas quantidade de gordura e de proteína. O Aipo é rico em vitaminas como:
Vitamina A, vitamina B, vitamina C, vitamina E, vitamina K e contem também cálcio, potássio, sódio e fósforo.
Como contém luteolina que é um tipo de flavonóide que limita o crescimento de células cancerosas e ainda é ajudado pelos ácidos fenólicos em prostaglandinas que restringem e ajudam a impedir o metabolismo das células cancerígenas e a cumarina que é um fitoquímico, estudos dizem que o aipo ajuda a evitar o aparecimento do cancro do cólon e do estômago.

Aproveito falar do aipo para vos deixar duas receitas feitas com aipo:




Arroz com cenoura e aipo

 


3 chávenas de arroz cozido
Talo de aipo fresco migado q.b.
Cenoura cortada em cubinhos q.b.
1 cebola
Azeite ou óleo q.b.
Alho a gosto
Sal q.b.



Comece por fazer um refogado com azeite, cebola e alho sem deixar alourar. Adicione o aipo e a cenoura e saltei sem deixar cozer muito. Se gostar pode polvilhar com um pouco de pimenta. Tempere com o sal, tomando em atenção ao sal que já adicionou no arroz previamente cozido.
Quando o aipo e a cenoura estiverem salteados, adicione o arroz e envolva. Deixe no lume só o suficiente para o arroz ficar quente como o aipo e a cenoura.
Sirva a acompanhar tanto carne como peixe e se gostar pode polvilhar com salsa picada.




Creme de cenoura e aipo

 

3 cenouras médias
1 aipo fresco  
400g de batatas descascadas
Alho a gosto
1 cebola
Sal q.b.
Pimenta a gosto
Água q.b.
1 embalagem de natas
Azeite virgem q.b.





Comece por limpar e cortar os legumes todos. (no aipo aproveite tanto o talo como a rama)
Leve os legumes a cozer em pouca água temperada com sal. (pode adicionar um ou dois caldos em cubo de carne ou legumes)
Depois de tudo bem cozido, reduza a um creme, adicione as natas e leve ao lume até levantar fervura. Entretanto retifique o tempero adicionando um pouco de pimenta e de azeite. (tomar em atenção a quantidade de azeite, pois já tem a gordura das natas) Se necessitar de um pouco mais de caldo porque está muito grosso, junte um pouco de leite ou água.
Antes de servir pode polvilhar com um pouco de rama de aipo migada e regar com um pouco fio de natas.

Bom apetite.